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3 histórias que me ocorreu contar

Três lembranças reais sobre uma pescaria, algumas brincadeiras e uma mentira
Nesta coleção, revisei o conteúdo e reuni 3 postagens sobre histórias com uma linguagem diferente da que costumo escrever. A reunião destes posts se deve a: [1] O blog está sendo reestruturado procurando melhorar a qualidade de suas postagens; [2] E não quero perder registros realizados aqui no blog que fizeram e fazem parte da minha carreira.

[1] A Piranha e o Médico


A Piranha e o Médico


Dezi, velha encurvada, cara de maracujá murcho, dentadura frouxa, tem como um dos poucos prazeres carteado, cerveja e pescaria. Se há uma mesa pra jogarem uma canastra, de lá ela não quer sair mesmo. Conversa e faz firulas tanto que desespera o parceiro e cansa as mãos dos adversários; blefar, nem se fala, até parece que está jogando pôquer. Às vezes, facilita uma derrota, pra manter a possibilidade de novas partidas. Quando não sai jogo, o jeito é ir pescar.

Certo dia, num rancho à beira rio, trajou-se e tralhou-se para a pesca. Calça jeans gasta; camisa manga cumprida; chapelão na cabeça; duas varas de molinete; quite com anzóis, chumbadas e tudo mais; uma lata daquelas de extrato de tomate cheia de minhocas e uma bola de massa caseira, e lá se vai rio acima.

No primeiro remanso ajeita-se à beira d'água, um cigarro e uma lata de cerveja, um primeiro peixinho e lá vai a segunda vara lançada procurando peixe maior. Não é uma ou duas vezes, que ela parece querer pescar macaco, anzol com isca vão parar nas grimpas das árvores. Mas ela dá um jeito, quando salva o anzol, é linha arrebentada, o quite é requisitado e logo o anzol está pronto pra ser lançado novamente.

A danada da Deziree é até sortuda, vez ou outra, aparece com um monte de peixes; mas a rotina é de bronquear-se por não ter pego praticamente nada. Neste dia a pescaria não estava rendendo muito, mas quando fez um daqueles arremessos de macaco e pra sua surpresa uma baita duma piranha o anzol apanhou. E veio ela correndo para o rancho mostrar a 'butela'...
Houve quem se desesperou quando viu a danada da piranha. Dezi se gabava toda de ter pego uma senhora piranha. Acontece que quando ela tentava desenroscar o anzol que estava preso aos galhos de uma árvore, este veio de encontro ao seu rosto e fisgou lhe a maça. Anzol com farpas, tirá-lo dali exigia destreza.

Eis que surge o Doutor Alaerthe. Lábia mansa, afinada pelas doses pingas já trabalhadas naquele dia, prontificou-se a resolver a situação. Assentou Dezi no baixo banco de taboa fina, estirado bem no meio do rancho, deu-lhe uma boa dose de cachaça e desinfetou o local com outra dose. Logo, a piranha estava aliviada devido às habilidosas mãos de Laerte - como mais chamado, o pedreiro-médico que cuidou da cirurgia. Dezi não guarda sinal do anzol, que não a lembrança da maior piranha que já fisgou.

[2] Um Pé de Sombra


O quintal tinha ali muitas laranjeiras e mexeriqueiras, alguns cajueiros e mangueiras, dois limoeiros, e mais um monte de outras fruteiras. Bastante sombra, o chão forrado de folhas e galhos entrelaçados, muitos galhos. Um cisternão.

Um pé de sombraBrincar de manhã era raro. Não tinha energia, nem água encanada. Tomar banho só esquentando água na fornalha e despejando aos poucos com uma cuia, num cercado de tábua, sabão de bola e bucha vegetal.

A tarde, depois do cansaço de ter enfrentado o retorno da escola, tinha um tempinho pra brincar, mas não podia deixar o sol fugir. E cada dia um canto diferente, uma nova brincadeira e um brinquedo inventado.

Fim de semana, tinha pesca garantida e visita aos tios. Banho nos córregos, ia até desbotar de tanta água. E ai brincar não era problema.

Na casa de um dos tios tinha um abacateiro bonito. O caroço de uma fruta levada pra casa revelou um pezão que serviu de sombra pra cisterna, galhos mais resistentes pro balanço e mais altos para avistar toda a vizinhança. Ali debaixo as brincadeiras de sempre eram montar uma fazendinha, construir tijolos de barro, montar um rego d'água vindo do tanque, que abastecia a lagoinha ou o poço.

Entre as mangueiras e cajueiros, num certo tempo do ano, minava água e corria bem ali do lado do quintal. Subir no cercado de arame farpado e atravessar de galho em galho as fruteiras exigia coragem, dava aflição e instigava a competição pra saber quem subia mais alto e atravessava mais depressa de um lado pro outro.

Quando brincar no quintal não era possível, porque tinha chuva ou não podia sujar, o jeito era ficar sobre as camas imaginando histórias, escrevendo nos cadernos vencidos de ano ou criando figurinhas de embalagens.

Tinham outros lugares usados nas brincadeiras, o paiol, a casinha de ferramentas e mantimentos, e o curral. Ah, o curral, ali do lado da grotinha de água eram horas e horas atravessando as tábuas num malabarismo ousado.
Às vezes correr pelo pasto pulando nos cupinzeiros, procurar coco de guariroba, usar o estradão pra brincar de bolinha de gude, quase sempre uma bolinha feita de barro ou pedras mais uniformes. Descansar sobre roxos ipês ou carvoeiros.

Pra brincar bastava um tempinho entre as muitas atividades ajudando os pais, o consentimento e um pé de sombra. O resto, quem cuidava era a imaginação. Pena, as crianças irem crescendo, a mudança para a cidade, o tempo escasso, as sombras irem desaparecendo e o quintal cada vez mais pobre.

[3] Mintira dus Primu


O modo escrito não deve indicar a maneira com que aquele que vive na roça conversa, foi apenas um artifício para enfatizar a narrativa e buscar o interesse do leitor.

Cus nove anu foi morá na roça. Lá pras banda da grota seca, tinha muita tirinha de terra que os oito tii, irmãos du pai deze partiru, pedaçu de herança. Uma tirinha do lado da ôta, coisa de dois arquêre cada. E daí vieru muita história. Uma deza conta a mintira dus primu.

Roça por onde passou a históriaDia desses, ele e o irmão láiam nu caminho da iscola. A saída era cedo, o percurso era grande. Um pedaçu de istrada cheiu de portêra, às vêis muita puêra, ôtas vêis lama, trierus do gadu, uma pinguela de improviso pra atravessá o corgo, por veiz nem era pricisu dela de tão seco, ôtas nem era vista de tanta água. A passagi do capinzal na terra a'ditrais, ali nus fundu das roça dos tii era uma das mais labutósa, tinha uma juquira de pená. E vinha mais um pedaçu grande de chão, uma istrada que ia pelas banda de Itapuranga.

Tinha pé di limão, um monti de pé di goiába e pertu duma ponte, um pé de fruta vermeia, que mais tarde discubriu que era pitanga. A ponte de taba teve tempus de muito buraco, e dava medu de travessá. E ai dispois pudia escoiê, cuntinuava na istrada até chegá na iscola ou pegava um ataiu pêza terra donde morava a professora, muié do passarinho, o Zé Canáru.

Se pegasse a cuntinuá na istrada, di vêis im quandu parávam pra brincá num tanqui grandi ôtas vêis iam jogânu bolinha de gude ou catânu umas frutinha preta cum um melzin dentu e chupava tudo. E quase na hora de chegá na iscola, tinha um matu grandi que fazia boa sombra e muitas vêis tinha uns macaquin pulânu nus gaiu pra assustá.
Se pegasse u ataiu pela roça da professora Maria, era um pedação grande de trieru, e a brincadera era de iscondê arguma coisa, um dus colega saia na frenti iscondia ela e os ôtu tinha que achá, quem achasse cuntinuava a brincadêra. E pur lá não tinha matu.

Já istiquei pur dimais a contá du caminhu e ainda não falei nada da mintira. Ia os dois irmão e dois primu quase toda vêis juntus pra iscola e dispôis juntavam cum u fii da professora. Certo dia us primu, que gostava muitu de inventá, na vórta da iscola, pôco da frente da ponte da pitanga, inventáru que não ia tê aula nu ôtu dia. E os irmão querditáru, já que êis passaru na casa da tia – mãe dus primu – e confirmáru a históra. Chegaru im casa e contáru pra mãe dêis, que a fessora dispensô, purque ia viajá i num tinha aula nu grupu.

A mãe já foi avizânu que se êis tivessi mintinu, êis ia apanhá. E a danada era braba que dói sô. Tudo bão. Eis ia fica a sexta sem aula, era um dia a mais pas bagunça. Contece que u fii da fessora foi na casa deis pra comprá um queiju e preguntô purque que êis num foi na iscola quele dia. Êis já ficô tudu chorânu, já sabia, que vinha coça.

Pra turturá, a mãe paricia demorá muitu pra falá cu êis. E quandu ela vêi, mais já foi uma gritaria dus diábu. E êis só dizia que us primu falô que num tinha aula. Mais num diantava. As varada groça cumia nu lombu e pegava im tudo qué lugá. Us bichinhu sufria, credo sô.

E findânu tudu, a mãe preparô um monte de pimenta das da tumarim e da malaguêta tudo maçada e fêis êis cumê, que era pra num minti mais. Coisa feia sô, us mininu panhô muito e inda ficô u restu du dia cum dô nu coipu e a boca quemânu. E tudu purque êis querditô na mintira dus primu.

Charles Bastos

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