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Vida e ciência da matemática Marie Curie

Texto sobre Marie Curie, de Lucía Tosi em Revista Ciência Hoje das Crianças
Este post é uma reprodução do texto de Lucía Tosi, na revista Ciência Hoje das Crianças de março de 1996.

Vida e ciência da matemática Marie Curie

Maya Sklodowska, que mais tarde ficou conhecida como Marie Curie, nasceu em Varsóvia, na Polônia, em 7 de novembro de 1867. Era a caçula de cinco irmãos, quatro meninas e um menino. Seu pai era professor e vice-inspetor em um ginásio e sua mãe, também professora, dirigia um colégio interno para moças. Era uma família unida, que se dedicava muito ao trabalho e aos estudos.

Desde menina, Marya teve que suportar duras provas. Quando tinha 9 anos, sua irmã mais velha morreu. Dois anos depois, foi a vez de sua mãe. Além disso, a região onde morava estava dominada pelos russos, que impunham leis mito severas aos poloneses. Seu pai perdeu o cargo de vice-inspetor e a família teve que viver em condições precárias.

Aos 16 anos, acabou o ginásio com medalha de ouro. Mas, naquele tempo, na Polônia, não era permitido que as mulheres fossem para a universidade. Por isso, ela e sua irmã Bronia decidiram estudar na França e fizeram um trato: Bronia iria estudar medicina em Paris, enquanto Marya ficaria na Polônia trabalhando como governanta para ajudar a irmã. Depois, quando Bronia se formasse, seria a vez de Marya viajar para a França.

Em setembro de 1891, já com 23 anos, ela finalmente realizou seu sonho: inscreveu-se na Faculdade de Ciências na Universidade de Paris, mais conhecida por Sorbonne. Foi nessa ocasião que trocou seu nome para Marie.

Passou três anos morando em quartos mal aquecidos no inverno, economizando cada tostão e estudando intensamente. No final de seus estudos universitários em física, em 1893, ela tirou o primeiro lugar. Nas férias, voltou à Polônia, onde ganhou uma bolsa que lhe permitiu estudar matemática, curso que terminou em segundo lugar.

No início daquele ano, Marie conheceu o físico francês Pierre Curie na casa de um amigo polonês. Ele tinha 35 anos e já havia feito importantes descobertas científicas. Como Marie, amava a ciência e tinha os mesmos ideais humanísticos. A amizade foi longe: casaram-se em 26 de julho de 1895. De presente, ganharam duas bicicletas (inventadas há pouco tempo) e partiram pedalando para a bela região próxima a Paris.

De volta da lua-de-mel, Marie se preparou para o concurso que seleciona as pessoas que vão poder dar aulas de ciências no segundo grau, o que conseguiu em 1896. No ano seguinte, nasceu a primeira filha do casal, Irene.

Vida e ciência da matemática Marie CurieLogo depois, Marie começou a procurar um tema de pesquisa para o seu doutorado, um curso que se faz depois da universidade. Decidiu estuar um fenômeno descoberto pouco antes pelo físico francês Henri Becquerel. Ele colocou sais de um elemento químico chamado urânio sobre uma placa sensível protegida por uma folha de alumínio e manteve esse dispositivo na escuridão. Com tal experimento, observou que a imagem desse sal ficava impressa na placa. Deduziu, então, que os sais de urânio emitiam uma radiação (como os raios do Sol) que não podia ser vista facilmente, à qual deu o nome de raios urânicos.

Marie começou a estudar essa radiação e foi fazendo descobertas cada vez mais interessantes. Pesquisou diferentes compostos de urânio (que reúne pelo menos mais um elemento químico) e descobriu dois fatos importantes. Primeiro, que esse fenômeno, ao qual ela depois chamou radioatividade, não dependia do composto estudado: era o próprio urânio que emitia esses raios. Segundo, é que os minérios dos quais se extraíam os compostos de urânio tinham outro elemento, até então desconhecido, capaz de emitir ainda mais radiações.

Em 12 de abril de 1898, alguns resultados obtidos por Marie foram apresentados à Academia de Ciências, um órgão na França onde se reúnem os melhores cientistas. Esses resultados eram tão empolgantes que Pierre abandonou sua pesquisa para ajudar no trabalho de sua mulher. Juntos, passavam horas tentando isolar o elemento químico descoberto por Marie. Eles observaram que, na verdade, eram dois elementos, aos quais chamaram polônio (em homenagem à Polônia) e rádio. O polônio era 300 vezes mais radioativo que o urânio e o rádio, um milhão de vezes.

A descoberta do rádio fez com que ela, juntamente com Pierre, ficasse famosa. Mas foi um trabalho duro, principalmente para Marie, que dedicou muitas horas até conseguir, em 1902, um material mais puro e, então, determinar suas propriedades químicas e físicas. Toda essa pesquisa foi feita em um galpão mal protegido do calor do verão e do frio e da chuva do inverno.

Já a partir de 1900, os pesquisadores observaram que a radioatividade atinge o corpo humano. Para tentar entender melhor esses efeitos, Pierre colocou um pouco de rádio em seu próprio braço. A pele ficou vermelha e depois virou uma ferida. Becquerel também fez testes em seu corpo e mostrou que o rádio não provocava efeitos quando estava envolvido em outro metal, o chumbo. Mas, naquela época, não se sabia que se expor ao rádio durante muito tempo  podia até matar e ninguém se preocupava em se proteger. Os Curie não se deram conta de que os dedos doloridos, a fraqueza e as fortes dores no corpo, que atingiam principalmente Pierre, eram causados pelos rádio.

Em 1903, o rádio começou a ser testado para tratar duas doenças: o câncer e o lupo.  Nesse mesmo ano, o Prêmio Nobel de Física foi dado a Becquerel e ao casal Curie pelas pesquisas sobre a radioatividade. Foi a primeira vez que uma mulher ganhou esse prêmio.

Em 1904, Pierre foi nomeado professor de física na Faculdade de Ciências da Sorbonne. Nesse mesmo ano, nasceu a segunda filha do casal, Eve. Dois anos depois, Marie enfrentou uma nova prova: Pierre morreu em um acidente, atropelado por um caminhão, naquela época puxado por cavalos. Com a morte do marido, Marie ocupou o seu cargo de professor, sendo, assim, a primeira mulher a ensinar em uma universidade francesa.

Juntamente com o francês André Debierne, Marie obteve o rádio em estado puro, em 1910. No ano seguinte, ganhou, mais uma vez, o Prêmio Nobel de Química. a partir dessa data, dedicou-se a conseguir dinheiro para construir um centro de pesquisa da radioatividade e de seu uso no tratamento de doenças.

Depois de muito esforço, o Instituto do Rádio (hoje, Instituto Curie) ficou pronto, no início da Primeira Guerra Mundial, em 1914. Nesse importante centro trabalharam pesquisadores de diferentes países e nele foram feitas grandes descobertas. Quase todos os cientistas franceses especialistas em radioatividade e em física nuclear se formaram ali.

Durante a guerra, Marie criou postos de radiografia que, instalados em furgões (chamados "pequenos Curie"), eram levados até os hospitais. Ao radiografar os feridos, sabia-se, com precisão, onde estava a bala. Muitas vezes a própria Marie, com ajuda de sua filha Irene, dirigia os carros. Instalou também salas de radiologia e ensinou  várias pessoas a fazer esse serviço.

Depois da guerra, o mundo reconheceu as excelentes qualidades de Marie, tanto do ponto de vista científico como humano, e ela ficou famosa.

Foi convidada para visitar diversos países e dar palestras, inclusive no Brasil em 1926. Em sua viagem aos Estados Unidos, em 1921, com a filha, recebeu um grama de rádio, presente das mulheres americanas, que ela doou ao Instituto do Rádio, no qual continuou realizando suas pesquisas com diferentes colaboradores.

A partir de 1920, começou a sentir os efeitos das radiações às quais permaneceu exposta durante cerca de duas décadas. Os estragos nas suas mãos impressionavam os que a visitavam, mas ela continuou trabalhando até quase o fim da vida. Em 4 de julho de 1934, morreu de leucemia, provavelmente causada pelas radiações. Seus cadernos de laboratório permanecem radioativos até hoje.

No ano passado [1995], os restos mortais de Marie foram colocados no Pantheon, um lugar onde ficam os grandes homens mortos. Mesmo sem ela ser francesa... É, mais uma vez, a primeira mulher que recebe essa homenagem.


Referência

TOSI, Lucía. A Ciência de Marie Curie. Laboratório de Físico-Química Biomolecular e Celular, Universidade Pierre e Marie Curie. Revista Ciência Hoje das Crianças, 2ª edição, ano 9, nº 56, 1996.

Charles Bastos

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